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Repetir, agir e transformar a prática pedagógica na diversidade

Sobre o enfoque da prática pedagógica, é indispensável reconhecer-se o sujeito que aprende em sua dimensão biopsicossocial, o que nos leva a refletir e a agir para o desenvolvimento de seu corpo e organismo (dimensão bio); de seus aspectos cognitivos implícitos nas relações com o saber; de seus aspectos afetivo-emocionais, explícitos nas motivações (dimensão psico); e das relações interpessoais estabelecidas na escola e fora dela (dimensão social). Excluir qualquer dessas dimensões no agir pedagógico é uma forma de reduzir a realidade na diversidade.

Refletir: olhar para além da dificuldade

Refletir é o primeiro movimento para uma prática pedagógica verdadeiramente inclusiva. Antes de perguntar “por que esse aluno não aprende?”, precisamos perguntar: “como esse aluno aprende?”, “quais caminhos favorecem sua aprendizagem?” e “o que posso transformar em minha prática para possibilitar que ele avance?”

Essa mudança de olhar é fundamental. Uma dificuldade de aprendizagem não deve ser imediatamente interpretada como falta de capacidade, desinteresse ou falta de esforço. O comportamento apresentado pelo estudante pode comunicar necessidades que ainda não foram compreendidas.

Muitas vezes, aquilo que aparece como dificuldade é apenas a manifestação visível de algo que precisa ser investigado e acolhido. O educador, portanto, assume uma postura investigativa e sensível. Observa, escuta, registra, dialoga e busca compreender o sujeito antes de estabelecer conclusões.

Agir: transformar possibilidades em caminhos

A reflexão precisa conduzir à ação. Não basta reconhecer a diversidade; é necessário construir práticas pedagógicas que respondam a ela. Agir pedagogicamente diante da diversidade significa flexibilizar estratégias, diversificar recursos, respeitar diferentes ritmos e oferecer múltiplas possibilidades para que o estudante possa demonstrar aquilo que sabe e aquilo que está aprendendo.

Uma prática pedagógica significativa pode utilizar recursos visuais, experiências concretas, jogos, movimento, linguagem oral e escrita, atividades colaborativas, tecnologias e diferentes formas de avaliação. O objetivo não é facilitar indiscriminadamente o processo, mas criar caminhos acessíveis para que cada sujeito possa desenvolver suas potencialidades.

Nesse sentido, o professor deixa de ser apenas transmissor de conhecimento e passa a atuar como mediador da aprendizagem. Ele cria situações, estabelece vínculos, provoca descobertas e oferece condições para que o estudante participe ativamente da construção do conhecimento.

A dimensão biopsicossocial no processo de aprendizagem

Considerar a dimensão biológica significa reconhecer que o desenvolvimento do organismo, o sono, a alimentação, o desenvolvimento neurológico, os aspectos
sensoriais e as condições físicas podem interferir na disposição e na maneira como o sujeito participa das experiências de aprendizagem.

Na dimensão psicológica, é necessário compreender os processos cognitivos, as emoções, a autoestima, a motivação, a atenção, a memória, as funções executivas e a relação que o sujeito estabelece com o conhecimento.

Já a dimensão social nos lembra que ninguém aprende isoladamente. A família, a escola, os professores, os colegas e os diferentes ambientes sociais participam da construção das experiências e das possibilidades de desenvolvimento. Essas dimensões não funcionam de maneira isolada. Elas se relacionam continuamente.

Um estudante emocionalmente inseguro pode apresentar dificuldades para se concentrar. Um ambiente pouco acolhedor pode interferir em sua motivação. Uma dificuldade cognitiva pode repercutir nas relações sociais. Da mesma maneira, experiências positivas de pertencimento, segurança e valorização podem favorecer o envolvimento com a aprendizagem.

Assim, compreender o sujeito em sua totalidade é essencial para que a intervenção pedagógica seja mais humana, consciente e efetiva.

Transformar: uma prática que reconhece e valoriza a singularidade

Transformar a prática pedagógica não significa criar uma escola diferente para cada estudante. Significa construir uma escola capaz de reconhecer as diferenças sem transformar a diferença em desigualdade.

A inclusão começa quando deixamos de enxergar apenas aquilo que falta e passamos a identificar também aquilo que existe: habilidades, interesses, potencialidades, estratégias próprias e possibilidades de desenvolvimento A diversidade não deve ser vista como um obstáculo ao processo educativo, mas
como parte constitutiva da própria humanidade. É justamente porque somos diferentes que precisamos de uma educação capaz de acolher diferentes formas de aprender, pensar, sentir, comunicar e participar.

Quando o educador reconhece o sujeito em sua dimensão biopsicossocial, amplia seu olhar e transforma sua prática. Quando a escola acolhe as diferenças, cria pertencimento. Quando família e escola estabelecem parceria, fortalecem o desenvolvimento. E quando todos compreendem que cada pessoa possui um percurso singular, a educação deixa de ser apenas transmissão de conhecimentos e passa a ser também um espaço de desenvolvimento humano, autonomia e transformação social.

Portanto, refletir sobre a diversidade é também refletir sobre a própria prática. É compreender que ensinar exige disponibilidade para aprender com o outro, rever conceitos, romper com preconceitos e buscar novas possibilidades. Porque transformar a prática pedagógica começa quando transformamos o nosso
olhar sobre quem aprende.

Passo

* Regina Marques Gonçalves
Neuropedagoga & Psicopedagoga Clínica

 

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