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Cerca de 62% dos brasileiros adultos estão acima do peso

Os números são alarmantes: 62% dos brasileiros adultos estão acima do peso, e cerca de um em cada quatro convive com a obesidade. Se você acha que isso é assustador, saiba que em apenas duas décadas, o Brasil praticamente dobrou seus índices de obesidade, tornando-se um dos países com maior crescimento dessa condição no mundo.

A pandemia de Covid-19 acelerou ainda mais essa crise silenciosa. Durante o isolamento social, o ganho de peso médio por brasileiro foi de 7 quilos, segundo dados da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). E não, não foi apenas o sedentarismo ou o acesso facilitado à geladeira, foi algo muito mais profundo.

Para as mulheres entre 35 e 55 anos, esse cenário é ainda mais crítico. Dados recentes mostram que 70% das mulheres nessa faixa etária tentaram emagrecer nos últimos 12 meses. E aqui está o dado mais revelador: a vasta maioria falhou. Não por falta de esforço, mas porque tentaram da forma errada.

Os custos vão além da balança. A obesidade é hoje a principal causa evitável de morte no Brasil, superando até mesmo o tabagismo. Ela está diretamente relacionada a diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, diversos tipos de câncer e problemas articulares. O Sistema Único de Saúde (SUS) gasta bilhões anualmente tratando doenças relacionadas à obesidade.

Mas por trás desses números frios existe uma realidade devastadora: são 27,9 milhões de mulheres brasileiras com sobrepeso ou obesidade, cada uma carregando suas próprias histórias de frustração, culpa e dor. Mulheres que já gastaram entre R$ 5 mil e R$ 20 mil tentando emagrecer e ainda assim estão presas no ciclo interminável do efeito sanfona.

A epidemia é silenciosa porque o verdadeiro sofrimento acontece nos bastidores, longe dos holofotes. Acontece quando você evita espelhos e fotos. Quando guarda roupas de três tamanhos diferentes “para quando emagrecer”. Quando cancela viagens e eventos porque não quer ser vista assim. Quando o relacionamento íntimo esfria porque você não se sente desejável. Quando seus filhos comentam sobre seu peso e você morre por dentro.

O que não está funcionando

Se você já tentou emagrecer seguindo uma dieta restritiva, se já contou cada caloria obsessivamente, se já eliminou carboidratos ou gorduras completamente da sua vida, se já se matriculou naquela academia cara com promessa de “transformação em 90 dias” você não está sozinha.

E se esses métodos não funcionaram a longo prazo, você definitivamente não está sozinha.
A verdade inconveniente que a indústria bilionária do emagrecimento não quer que você saiba é esta: 95% das dietas restritivas falham em um prazo de 5 anos.

Se 95% das pessoas falham, será que o problema está nas pessoas ou no método?
Você não é fraca. Não é preguiçosa. Não tem “falta de força de vontade”. O método que está sendo vendido para você é que está falido.
O mercado de emagrecimento movimenta bilhões de reais anualmente vendendo a mesma promessa embalada de formas diferentes: “coma menos, exercite-se mais, tenha disciplina”.

Shakes substitutos de refeição. Dietas com nomes chamativos (low carb, cetogênica, jejum intermitente, detox). Aplicativos que transformam a alimentação em matemática obsessiva. Planos alimentares que eliminam completamente o prazer de comer.

E o mais absurdo? Recentemente vimos a explosão dos “remédios milagrosos” para emagrecimento, injeções semanais que prometem perda de peso rápida e fácil. Ozempic, Wegovy, Mounjaro viraram quase moda nas rodas de conversa. E o que ninguém te conta é que assim que você para de tomar, o peso volta. Porque, mais uma vez, estamos tratando o sintoma e ignorando a causa.

Tudo isso focado exclusivamente no corpo físico. Como se você fosse apenas um saco de carne que precisa de menos combustível.
O resultado? Um ciclo vicioso e doloroso que você conhece muito bem:

  • Você começa uma nova dieta cheia de motivação e esperança (outra vez)
    Segue as regras rigidamente, privando-se de alimentos que ama
  • Perde alguns quilos inicialmente (sim!)
  • O corpo entra em modo de escassez, o metabolismo desacelera

A vida acontece: estresse no trabalho, problema familiar, uma emoção difícil. Você “quebra” a dieta e come aquilo que estava proibidoVem a culpa avassaladora, a sensação de fracasso familiar.

O peso volta (às vezes com juros, o temido efeito sanfona)

  • Você se sente ainda pior do que antes
  • Espera um pouco e procura a próxima dieta milagrosa, pensando “desta vez será diferente”

Esse ciclo não é uma falha sua. É uma falha estrutural do método

Pesquisas mostram que mulheres entre 35 e 55 anos, em média, já tentaram entre 15 e 30 dietas diferentes ao longo da vida. Trinta tentativas. Trinta fracassos. Trinta vezes se sentindo culpada, incapaz, envergonhada.

E a cada tentativa, algo piora: o efeito sanfona não apenas te faz recuperar o peso, mas muitas vezes você ganha mais do que perdeu. Seu metabolismo fica cada vez mais confuso. Sua autoconfiança vai pro chão. E o pior: você começa a acreditar que o problema é você.

Quando tratamos a obesidade apenas como uma questão de calorias que entram versus calorias que saem, estamos simplificando brutal e perigosamente um problema complexo, multifatorial e profundamente humano.

Estamos ignorando décadas de pesquisas em neurociência, psicologia comportamental e ciência do trauma que nos mostram uma verdade incômoda: se a solução fosse apenas comer menos e se exercitar mais, por que tantas mulheres inteligentes, determinadas, bem-sucedidas em suas carreiras, capazes de gerenciar casa, filhos, trabalho e mil responsabilidades.

Por que essas mulheres ainda lutam ano após ano com seu peso? A resposta está justamente onde ninguém está olhando: dentro de você.

A verdade invisível

Deixe eu te contar algo que pode mudar completamente sua perspectiva sobre seu peso: você não tem um problema com comida. Você tem um problema que está tentando resolver com comida. Ao longo dos meus 4 anos trabalhando exclusivamente com emagrecimento comportamental e das mulheres que já atendi, descobri um padrão que se repete quase universalmente: a comida deixou de ser apenas alimento.

Ela virou conforto quando você se sentiu sozinha, recompensa quando ninguém reconheceu seu esforço, companhia quando a solidão doía demais. Pausa quando a vida estava caótica demais, Punição quando você se sentiu culpada, controle quando tudo ao redor parecia fora de controle, anestésico para emoções que você não sabia como processar.

A neurociência nos mostra algo fascinante: quando comemos alimentos altamente palatáveis (ricos em açúcar, gordura e sal), nosso cérebro libera dopamina, o mesmo neurotransmissor liberado por drogas como cocaína e heroína. Por isso a expressão “viciado em açúcar” não é metáfora. É literalmente o que acontece no seu cérebro.

Mas aqui está o ponto crucial: você não desenvolveu esse padrão porque é fraca ou sem controle. Você desenvolveu porque é humana, e seu cérebro encontrou uma forma rápida e acessível de aliviar dores emocionais que não sabia como processar de outra forma.

Pense em quando você come sem fome de verdade. O que normalmente está acontecendo

  • Você acabou de ter uma discussão com alguém?
  • Recebeu uma crítica no trabalho?
  • Está se sentindo invisível no relacionamento?
  • Passou o dia inteiro cuidando de todo mundo menos de você?
  • Está ansiosa com alguma situação futura?
  • Se sentiu rejeitada ou excluída de alguma forma?
  • Está exausta de carregar tantas responsabilidades sozinha?

É aí que mora a verdade: você não está com fome. Você está com uma ferida emocional aberta. Em meus anos trabalhando com essa dor, identifiquei cinco feridas emocionais principais que alimentam (literalmente) os padrões de compulsão e descontrole alimentar. Sáo elas:

1. A Ferida da Rejeição

Se você cresceu sentindo que não era boa o suficiente, que precisava ser diferente para ser aceita, a comida pode ter se tornado a única coisa que te “aceitava” sem julgamentos. Ela nunca te rejeitou. Estava sempre ali, disponível, sem fazer perguntas.

2. A Ferida do Abandono

Se você experimentou perdas significativas, separações dolorosas ou sentiu que as pessoas importantes saíram da sua vida, especialmente na infância, pode ter desenvolvido uma relação de dependência emocional com a comida.

3. A Ferida da Humilhação

Se você foi ridicularizada, envergonhada ou humilhada, especialmente em relação ao seu corpo, peso ou aparência, pode ter desenvolvido dois padrões opostos mas igualmente destrutivos:

Padrão 1: comer como forma de autopunição (“já que dizem que sou gorda mesmo, dane-se, vou comer tudo”).

Padrão 2: usar o peso como armadura protetora. Uma forma inconsciente de se tornar “invisível” ou menos sexual, para não correr o risco de ser machucada novamente.

4. A Ferida da Traição

Se você sentiu que sua confiança foi quebrada, que foi traída por pessoas em quem acreditava (pais, parceiros, amigos), pode ter desenvolvido dificuldade profunda em confiar, inclusive em si mesma. O padrão de “sabotar” repetidamente a própria dieta ou processo de emagrecimento está frequentemente ligado a essa ferida: “Se eu me decepciono primeiro, pelo menos não dou chance para ninguém me decepcionar.”

5. A Ferida da Injustiça

Se você cresceu em um ambiente rígido, com regras excessivas, onde seus sentimentos não eram validados e você precisava ser “perfeita”, pode ter desenvolvido uma relação de rigidez e rebeldia com a alimentação.

Cada uma dessas feridas cria padrões neurológicos específicos. Quando você experimenta uma emoção difícil relacionada a essas feridas, rejeição no trabalho, sensação de abandono em um relacionamento, humilhação em uma situação social, seu cérebro automaticamente busca a solução que já aprendeu e registrou como eficaz: comer.

Não é falta de força de vontade. É um padrão neurológico automático que foi criado para te proteger da dor emocional. E aqui está a parte mais importante: enquanto você continuar tratando apenas o sintoma (o peso, a comida), sem olhar para essas feridas emocionais, você vai continuar nesse ciclo infinito.

Você pode até perder peso temporariamente com dietas restritivas ou até mesmo com medicações, mas as feridas continuam ali, abertas, esperando o momento certo para serem “alimentadas” novamente. É por isso que tantas mulheres me procuram dizendo exatamente isto: “Eu sei o que preciso fazer, sei o que devo comer, mas simplesmente não consigo fazer.” Porque o problema nunca foi sobre saber. Foi sempre sobre sentir.

O caminho: emagrecer de dentro para fora

Se você chegou até aqui, provavelmente já está tendo alguns insights sobre sua própria jornada. Talvez esteja começando a conectar os pontos entre situações da sua vida e seus padrões com comida. E se isso está acontecendo, saiba que o processo de transformação mais importante já começou: a consciência.

O emagrecimento verdadeiro e sustentável, aquele que não volta mais, não começa na geladeira ou na academia. Começa quando você para de guerrear contra si mesma e começa a entender o que realmente está acontecendo. Começa quando você deixa de ver a comida como inimiga e passa a vê-la como mensageira, uma forma que seu corpo e mente encontraram de comunicar que algo precisa ser cuidado.

Emagrecer de dentro para fora significa tratar a causa raiz, não apenas o sintoma. Minha própria jornada é prova viva disso. Foram anos fazendo dietas, tentando todos os métodos, perdendo e ganhando peso repetidamente, até que finalmente olhei para dentro e entendi que meu peso era apenas a manifestação física de dores emocionais não curadas.

Quando finalmente transformei minha relação com a comida, quando aprendi a processar minhas emoções de formas saudáveis, quando parei de usar comida como anestésico foi aí que emagrecimento real aconteceu. E ela permanece até hoje.

Nos meus quatro anos trabalhando exclusivamente com emagrecimento comportamental para mulheres, desenvolvi uma metodologia que integra cinco pilares fundamentais:

1. Mentalidade

Antes de mudar o que você come, precisamos mudar como você pensa sobre comida, sobre seu corpo e sobre si mesma. Isso inclui identificar e desafiar crenças limitantes que você carrega há anos:

  • “Eu sempre fui gorda e sempre vou ser”
  • “Eu não tenho força de vontade”
  • “Emagrecer é sofrer”
  • “Meu metabolismo está destruído”
  • “Eu sou diferente, comigo não funciona”

Essas crenças criam sua realidade. Quando transformamos a mentalidade, transformamos as possibilidades.

2. Regulação emocional

Aqui está o coração da transformação. Você precisa aprender formas saudáveis de processar e regular suas emoções que não envolvam comida. Isso significa desenvolver repertório emocional: reconhecer o que está sentindo (muitas vezes nem sabemos nomear a emoção), validar essas emoções sem julgamento (“não sou fraca por sentir isso”), e ter ferramentas práticas baseadas em Terapia Cognitivo-Comportamental e neurociência para lidar com elas.

É sobre curar as feridas emocionais que alimentam os padrões compulsivos. Não dá para pular essa parte.

3. Estratégias praticas

Sim, a alimentação importa. O movimento importa. Mas não da forma punitiva e restritiva que você está acostumada. Trabalhamos com estratégias alimentares flexíveis, que respeitam suas preferências, sua rotina, sua humanidade e sua realidade de mulher com mil responsabilidades.

Nada de listas intermináveis de alimentos proibidos. Nada de pontos ou matemática obsessiva. Apenas orientações baseadas em evidências científicas que você consegue sustentar pelo resto da vida porque são compatíveis com a sua vida real.

4. Mudança de comportamento

Baseada na terapia cognitivo-comportamental, esta parte foca em identificar gatilhos, padrões automáticos e criar novos circuitos neurológicos. É aqui que o conhecimento vira prática. Onde você aprende a agir diferente mesmo quando a emoção está gritando para você agir da forma antiga. Onde construímos, tijolinho por tijolinho, novos hábitos que se tornam automáticos.

5. Espiritualidade

Não estou falando necessariamente de religião, mas de conexão com algo maior que você mesma. De encontrar propósito, significado e aceitação profunda. De entender que você é muito mais do que um número na balança.

Esse pilar traz a paz interior necessária para que a transformação seja gentil, amorosa e duradoura e não mais uma guerra brutal contra você mesma.

Quando integramos esses cinco pilares, algo quase mágico acontece: você para de fazer dieta e começa a viver de forma diferente. Naturalmente. Sem esforço excessivo. Sem sofrimento. A verdade libertadora é esta: quando você transforma sua relação com a comida, o emagrecimento acontece como consequência natural, não como objetivo forçado.

Você para de comer compulsivamente porque não precisa mais anestesiar emoções, você aprendeu a senti-las e processá-las de forma saudável. Você para de sabotar suas escolhas porque não está mais em guerra consigo mesma, você finalmente está do seu próprio lado.

Você para de oscilar entre restrição extrema e descontrole total porque encontrou equilíbrio, um caminho do meio que honra suas necessidades físicas e emocionais. E o mais importante: você para de ver emagrecimento como punição pelo corpo que tem e passa a ver como um ato de amor próprio, de cuidado, de honrar a mulher incrível que você é.

A epidemia não vai se resolver com mais dietas

Agora você entende por que essa epidemia é silenciosa: porque estamos olhando para o lugar errado. Estamos tratando corpos quando deveríamos estar cuidando de pessoas. Estamos contando calorias quando deveríamos estar validando emoções. Estamos prescrevendo dietas quando deveríamos estar olhando para as emoçôesl. Estamos vendendo remédios milagrosos quando deveríamos estar ensinando regulação emocional.

A epidemia de obesidade não vai se resolver com mais dietas restritivas, mais aplicativos de contagem de calorias, mais shakes substitutos de refeição, mais injeções semanais ou mais campanhas simplistas de “coma menos, mova-se mais”. Ela só vai começar a se resolver quando mudarmos completamente o paradigma.

Quando entendermos que obesidade não é uma falha moral, mas uma resposta adaptativa a um ambiente emocional e social desafiador. Quando pararmos de culpabilizar indivíduos e começarmos a oferecer ferramentas reais de transformação.

Precisamos de uma mudança de paradigma que reconheça a complexidade do ser humano. Que integre corpo, mente e emoções. Que ofereça compaixão em vez de julgamento. Que cure feridas em vez de apenas prescrever privações.

Então, se você está lendo este artigo e reconheceu sua própria história nas palavras, quero que você pare por um momento. Respire fundo. E se faça estas perguntas:
Que emoções estou tentando evitar quando como compulsivamente? Qual ferida emocional pode estar por trás dos meus padrões com comida? O que meu corpo está tentando me dizer através do meu peso? Se minha relação com comida pudesse falar, o que ela estaria pedindo?

As respostas a essas perguntas são infinitamente mais importantes do que quantas calorias você consumiu hoje ou quantos quilos a balança marcou esta manhã. Porque a verdade mais libertadora que posso te oferecer é esta: você não está com fome. Você está ferida.

E feridas não se curam com restrição, privação ou punição. Elas se curam com cuidado, compreensão e compaixão. Quando você finalmente olha para elas com coragem e amor, quando você as acolhe em vez de negá-las, quando você busca a transformaçâo verdadeira é aí que o milagre acontece.

O corpo que você sempre quis, a paz que você tanto busca, a liberdade que parece impossível, nada disso está do outro lado de mais uma dieta restritiva ou de uma injeção semanal.
Está do outro lado da cura emocional.
E essa jornada, apesar de desafiadora, é a mais libertadora que você pode fazer. Porque quando você finalmente emagrece de dentro pra fora, a transformação é permanente.

* Emi Moraes, psicoterapeuta especializada em emagrecimento comportamental, criadora da metodologia “Emagreça de dentro pra fora”.

Instagram: @euemi_moraes

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