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A geração de mulheres que aprendeu a valer menos a cada quilo

Como uma geração de mulheres aprendeu a medir o próprio valor em quilos e o que está mudando agora, aos 40 anos 

Quem foi menina nos anos 80 e 90 que aprendeu cedo uma equação que ninguém escreveu no quadro e que todo mundo decorou: corpo magro é sinônimo de valor.

Ela veio nas capas de revista que prometiam cinco quilos a menos até o verão. Veio nos comentários de família no almoço de domingo. Veio nas roupas que só existiam até certo tamanho e no elogio que chegava sempre do mesmo jeito — “nossa, como você está bem!” —, querendo dizer outra coisa.

Trinta anos depois, essas meninas são mulheres de 40 e 50. Muitas comandam times, criam filhos e sustentam casas. Ainda assim, uma parte considerável da autoestima delas continua sendo decidida por um número que aparece de manhã, no banheiro, antes do café.

Elas mudaram de corpo várias vezes. A régua nunca mudou.

O preço disso raramente é contabilizado. Aparece na relação com a comida, que vira campo de julgamento. Aparece na vida social que encolhe: o convite recusado, a foto evitada, a roupa que ficou na gaveta esperando um corpo futuro. E aparece, sobretudo, no ciclo que se repete — restrição, cansaço, “descontrole”, culpa, recomeço na segunda — que essas mulheres passam a vida interpretando como falha, quando é comportamento previsível de quem vive sob cobrança constante.

Como terapeuta e treinadora comportamental, escuto essa história em vozes diferentes todos os dias. O detalhe que quase ninguém percebe é este: o problema não é o desejo de emagrecer. É a conta que a mulher pendura no resultado.

O momento atual deixa isso ainda mais evidente. Nunca foi tão possível mudar de corpo, e as novas medicações escancararam essa possibilidade. Mas quem trabalha com comportamento observa um descompasso: o corpo muda mais rápido do que a cabeça.

Perde-se peso e permanece a mesma vigilância, a mesma culpa depois do jantar, a mesma sensação de estar sempre em falta. A régua não emagrece junto.

O que vem mudando, e talvez seja esta a boa notícia da geração, é a pergunta. Um número crescente de mulheres, ao chegar aos 40, para de perguntar “quanto eu preciso perder?” e começa a perguntar “por que eu preciso disso para me sentir merecedora?”.

Quando essa pergunta aparece, o emagrecimento não desaparece da vida delas. Ele muda de função. Deixa de ser prova e passa a ser cuidado: energia para a vida que elas construíram, sono melhor, uma relação menos hostil com a própria imagem.

O valor de uma mulher nunca esteve na balança. Mas o cuidado que ela decide ter consigo mesma muda tudo. Inclusive, muitas vezes, o corpo.
Emagrecer vai muito além da balança.

*BEmi Moraes, terapeuta e treinadora comportamental especialista em emagrecimento. Criadora do método “Emagreça de Dentro pra Fora. Se eu consegui, você também consegue, mas não da forma que te ensinaram.”

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