A expansão das apostas digitais aconteceu de forma muito rápida e foi, durante um período, socialmente normalizada. Falou-se muito sobre possibilidades de ganhos e entretenimento, mas a prevenção e a orientação sobre os riscos não acompanharam essa expansão na mesma proporção.
Hoje, os problemas relacionados às apostas digitais ainda são avassaladores para muitas pessoas e famílias. Por isso, talvez já tenha passado da hora de olharmos para essa questão não apenas pelos números, mas pelas pessoas que existem por trás deles.
Cada perda financeira tem uma história. Cada dívida pode esconder uma família em sofrimento. E cada comportamento compulsivo pode estar acompanhado de ansiedade, culpa, vergonha e conflitos que nem sempre aparecem nas estatísticas.
A proibição das bets pode representar uma mudança importante, mas não significa que o problema desapareceu. As apostas clandestinas continuam sendo um desafio. Em 29 de setembro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério da Fazenda informaram que solicitaram a derrubada de 5.209 domínios relacionados à exploração ilegal de apostas.
Esse cenário mostra que fiscalização e bloqueio são necessários, mas também evidenciam que o enfrentamento precisa ir além. A aposta ilegal pode ser como uma erva daninha: quando uma porta é fechada, outras podem tentar surgir.
E essas portas podem chegar às pessoas por meios muito simples: uma mensagem, um grupo de WhatsApp, uma indicação de amigos ou alguém dizendo que conhece uma plataforma que “está pagando”.
Por isso, precisamos cuidar de quem já foi afetado e, ao mesmo tempo, evitar que novas pessoas sejam atraídas para esse ciclo. Não se trata de culpabilizar quem apostou, mas de acolher, orientar e ajudar essa pessoa a compreender os riscos, inclusive para que não reproduza, ainda que involuntariamente, informações que possam levar outras pessoas às apostas clandestinas.
Como psicóloga que atua há quatro anos com pessoas e famílias impactadas pela Ludopatia, defendo que fiscalizar é necessário, mas prevenir e tratar também são.
Empresas, instituições, escolas, órgãos públicos e organizações sociais precisam participar desse processo. A prevenção não pode ser uma campanha pontual. É necessário desenvolver ações contínuas de conscientização, com palestras, rodas de conversa, grupos de apoio, capacitação de profissionais e orientação às famílias.
Nas empresas, esse cuidado também deve ser compreendido como parte da promoção da saúde e da qualidade de vida dos trabalhadores.
Prevenção é chegar antes: antes da dívida, antes do conflito familiar, antes do agravamento do sofrimento.
Talvez essa seja uma das principais lições que precisamos tirar desse processo: não podemos repetir a ausência de orientação que acompanhou a expansão das apostas digitais.
Já passou da hora de pensarmos nas pessoas, e não somente nos números. Porque por trás de cada estatística existe alguém que pode estar precisando de ajuda.
Se estamos fechando portas para as apostas, precisamos também abrir portas para o cuidado.
*MINICURRÍCULO:* Gleice Salteiro, é psicóloga, com 30 anos de formação, e atua há quatro anos na prevenção, acolhimento e tratamento de pessoas e famílias impactadas pela Ludopatia. É fundadora do Instituto Vencendo o Jogo, voltado à informação, prevenção e cuidado especializado relacionado às apostas digitais. Já acompanhou mais de 3 mil pessoas e famílias em sua atuação na área. É autora do livro “Vencendo o Jogo” e desenvolve projetos de conscientização, prevenção e orientação para famílias, empresas e instituições.
* Gleice Salteiro é psicóloga, com 30 anos de formação, e atua há quatro anos na prevenção, acolhimento e tratamento de pessoas e famílias impactadas pela Ludopatia.
É fundadora do Instituto Vencendo o Jogo, voltado à informação, prevenção e cuidado especializado relacionado às apostas digitais. Já acompanhou mais de 3 mil pessoas e famílias em sua atuação na área.
É autora do livro “Vencendo o Jogo” e desenvolve projetos de conscientização, prevenção e orientação para famílias, empresas e instituições.
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