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Confiança não basta: como proteger sua empresa dos riscos invisíveis

O perigo não bate à porta quando já tem a chave. O risco invisível que pode comprometer seus dados, seus clientes e a reputação do seu negócio. Imagine a seguinte situação: um funcionário deixa sua empresa. A despedida acontece, os documentos são assinados e a rotina continua. Mas existe um detalhe que ninguém percebeu: ele ainda consegue acessar sistemas, documentos e informações de clientes.

Agora pense nos prestadores de serviços, consultores, profissionais terceirizados e fornecedores que, em algum momento, também receberam acesso às informações do seu negócio. Você sabe exatamente quem pode acessar o quê dentro da sua empresa?

Essa pergunta, aparentemente simples, revela uma fragilidade presente em muitas organizações, especialmente nas pequenas e médias empresas: a confiança nas pessoas nem sempre é acompanhada dos cuidados necessários para proteger as informações.

E aqui está uma questão importante: não precisamos desconfiar de todos. Precisamos entender que confiança, sozinha, não é uma medida de segurança.

O problema nem sempre é quem erra, mas o que a empresa permite. Quando ocorre um vazamento de dados, uma fraude ou um acesso indevido, a reação costuma ser procurar o culpado.

Quem compartilhou a senha? Quem abriu aquele e-mail? Quem deixou a informação exposta? Mas existe uma pergunta muito mais importante para o empresário: minha empresa está preparada para continuar protegida mesmo quando alguém comete um erro?

As pessoas podem se distrair, ser enganadas por mensagens fraudulentas, compartilhar informações equivocadamente ou simplesmente desconhecer os riscos de determinadas ações. E isso não acontece apenas nas grandes corporações.

Uma planilha com dados de clientes enviada ao destinatário errado, uma senha compartilhada entre funcionários ou um antigo prestador que continua acessando o sistema pode representar riscos concretos para qualquer negócio.

Os números ajudam a compreender a dimensão desse problema. Segundo o relatório Data Breach Investigations Report 2024, da Verizon, uma das maiores empresas de telecomunicações e tecnologia sediada em Nova York, 68% das violações de dados analisadas envolveram o fator humano, como erros ou pessoas enganadas por criminosos digitais. Além disso, 15% envolveram terceiros, incluindo fornecedores e parceiros tecnológicos.
Isso demonstra que proteger informações não depende apenas de tecnologia.

Depende também de processos, orientação e responsabilidade.
LGPD: uma obrigação legal ou uma decisão inteligente de negócio? Muitos empresários ainda enxergam a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) como mais uma exigência burocrática, um conjunto de documentos ou uma preocupação exclusiva de grandes empresas.

Esse entendimento pode custar caro. A LGPD não existe apenas para exigir regras sobre o uso de dados pessoais. Ela também estimula uma mudança de comportamento: empresas precisam conhecer as informações que utilizam, compreender por que precisam delas e adotar cuidados para protegê-las.

Pense no valor da confiança para o seu negócio. Um cliente que compartilha seus dados espera que eles sejam tratados com responsabilidade. Um fornecedor precisa ter clareza sobre os limites de sua atuação. Um colaborador deve compreender quais informações pode acessar e utilizar.

Quando essa organização não existe, o problema pode ultrapassar a esfera jurídica. Pode atingir o relacionamento com clientes, interromper operações, gerar prejuízos financeiros e comprometer uma reputação construída ao longo de anos.

A LGPD não deve ser vista apenas como uma despesa para evitar multas, mas como parte da proteção do patrimônio e da continuidade do negócio. E não é necessário começar com estruturas complexas. Pequenas ações fazem diferença: definir quem precisa acessar cada informação, evitar senhas compartilhadas, orientar colaboradores, avaliar fornecedores e retirar acessos imediatamente quando uma relação profissional termina.

O tamanho da empresa pode mudar. A responsabilidade com os dados permanece. Quem entra na sua empresa também faz parte do seu risco.

Essa relação entre pessoas, empresas e terceiros, e os riscos que muitas vezes passam despercebidos no dia a dia dos negócios, é justamente o tema que abordo no capítulo que assino como coautora da obra “Privacidade, Proteção de Dados e Gestão de Riscos de Terceiros: Desafios Contemporâneos”, coordenada por Ana Paula Canto de Lima e Fernando Sampaio.

No capítulo “Riscos humanos na terceirização: empregados, temporários, consultores e prestadores como vetores de incidentes”, abordo um desafio cada vez mais relevante para as organizações: como identificar, prevenir e administrar riscos relacionados às pessoas que, por diferentes vínculos profissionais, têm acesso a informações e sistemas empresariais.

A discussão vai além de apontar falhas humanas. Trata da necessidade de estabelecer responsabilidades, acompanhar os acessos desde a contratação até o desligamento e construir uma cultura de prevenção que faça sentido na realidade das empresas.

Participar dessa obra representa uma oportunidade de contribuir para uma discussão que considero essencial: transformar a proteção de dados em uma prática de gestão, e não apenas em uma obrigação documental.

O livro reúne conhecimento voltado a profissionais que atuam com privacidade, proteção de dados, gestão de riscos e segurança da informação, mas suas reflexões também interessam diretamente a empresários que desejam construir negócios mais seguros e preparados para os desafios atuais.

Com lançamento online previsto para novembro de 2026 e lançamento presencial em São Paulo em março de 2027, a publicação reforça a importância de ampliar esse debate.

Antes que o problema apareça, faça uma pergunta: Se amanhã um funcionário, fornecedor ou prestador de serviços deixar sua empresa, você terá certeza de que todos os acessos dele serão encerrados?

Se a resposta for “não sei”, talvez exista um risco que mereça sua atenção.

Proteger dados não significa desconfiar das pessoas. Significa cuidar da empresa, dos clientes e das relações que sustentam o negócio.
Afinal, a confiança abre portas. Mas é a gestão responsável que determina quais devem permanecer abertas.

Márcia Lima, especialista em Privacidade e Proteção de Dados e coautora da obra “Privacidade, Proteção de Dados e Gestão de Riscos de Terceiros: Desafios Contemporâneos”.

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