No mês dedicado à prevenção do suicídio, psicóloga especializada em adolescentes chama atenção para mudanças de comportamento e sinais de sofrimento emocional que não devem ser ignorados
O início do Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, chama a atenção para a saúde mental dos adolescentes. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental no mundo.
Segundo a OMS, os transtornos mentais representam cerca de 15% da carga global de doenças nessa faixa etária. Depressão, ansiedade e transtornos comportamentais estão entre as principais causas de adoecimento e incapacidade entre adolescentes, e muitos desses quadros ainda permanecem sem reconhecimento e tratamento.
O cenário torna a discussão proposta pelo Setembro Amarelo ainda mais necessária. De acordo com as estimativas globais mais recentes divulgadas pela OMS, 727 mil pessoas morreram por suicídio no mundo em 2021. Entre pessoas de 15 a 29 anos, o suicídio foi a terceira principal causa de morte.
Para a psicóloga Aline Peres de Carvalho, especializada no atendimento de adolescentes, falar em prevenção exige ampliar a discussão para muito antes de uma situação de crise.
“Prevenir também significa perceber o sofrimento antes que ele chegue ao limite. É importante que pais, familiares e pessoas próximas estejam atentos às mudanças de comportamento e, principalmente, construam um ambiente em que o adolescente se sinta seguro para falar sobre aquilo que está vivendo”, explica.
Sinais de sofrimento emocional exigem atenção
A adolescência é naturalmente marcada por transformações emocionais, sociais e comportamentais. Em meio a tantas mudanças, alguns sinais de sofrimento podem passar despercebidos ou ser minimizados pela família.
Alterações importantes no sono ou no apetite, isolamento, irritabilidade acentuada, perda de interesse por atividades que antes davam prazer, queda brusca no rendimento escolar, desesperança e falas frequentes de desvalorização pessoal merecem atenção, especialmente quando se tornam intensas, persistentes ou começam a comprometer a rotina.
“Mais importante do que analisar um comportamento isolado é perceber se houve uma mudança significativa no padrão daquele adolescente. Quando ele deixa de fazer coisas que gostava, se afasta das pessoas ou demonstra sofrimento de forma recorrente, é importante investigar o que está acontecendo”, orienta Aline.
Ansiedade e depressão entre adolescentes
As estimativas mais recentes apresentadas pela OMS apontam que os transtornos de ansiedade atingem aproximadamente 4,1% dos adolescentes de 10 a 14 anos e 5,3% daqueles entre 15 e 19 anos. Já a depressão é estimada em 1,3% entre 10 e 14 anos e sobe para 3,4% entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Além do sofrimento emocional, ansiedade e depressão podem afetar a frequência e o desempenho escolar, as relações familiares e sociais e a qualidade de vida.
Para Aline, um dos erros que ainda precisam ser combatidos é minimizar aquilo que o adolescente está sentindo.
“Frases como ‘isso vai passar’, ‘você não tem motivo para estar triste’ ou comparações com os problemas de outras pessoas podem fazer com que o adolescente se feche ainda mais. A escuta precisa acontecer sem julgamento e sem diminuir a dimensão que aquele sofrimento tem para ele”, explica.
Setembro Amarelo começa dentro de casa
Embora o Setembro Amarelo amplie a discussão sobre prevenção ao suicídio, o cuidado com a saúde mental precisa fazer parte da rotina durante todo o ano.
A OMS aponta que diversos fatores podem afetar a saúde mental dos adolescentes, incluindo exposição à violência, abuso, pressão social, dificuldades socioeconômicas e problemas nos relacionamentos. Ambientes familiares e sociais acolhedores, por outro lado, podem atuar como importantes fatores de proteção.
“Não precisamos esperar uma crise para perguntar a um adolescente como ele está. Criar espaço para conversar sobre tristeza, medo, ansiedade, frustração e dificuldades também é prevenção. O Setembro Amarelo pode ser um convite para que as famílias comecem essas conversas e mantenham essa abertura durante o restante do ano”, afirma Aline.
A psicóloga reforça ainda que qualquer manifestação relacionada à vontade de morrer, desaparecer ou deixar de existir deve ser levada a sério. Nesses casos, é fundamental acolher o adolescente e buscar avaliação e acompanhamento profissional.
Sobre Aline Peres de Carvalho
Com 29 anos de atuação clínica, Aline Peres de Carvalho é formada em Psicologia pela PUC-PR e possui especializações em transtornos do humor, terapia cognitivo-comportamental para adolescentes e adultos, terapia dialética comportamental, orientação familiar, neurociência e comportamento humano, além de formação em psicologia sistêmica.
Também atua na área organizacional, desenvolvendo programas de psicoeducação, mentoria, coaching e iniciativas voltadas ao fortalecimento emocional e ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais.
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