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Seu marketing pode atrair um público que sua empresa não estava preparada para proteger.

Uma campanha de sucesso pode ampliar as vendas, conquistar novos consumidores e, ao mesmo tempo, exigir uma revisão das responsabilidades legais do negócio.

Imagine uma pequena empresa que decide investir em uma campanha digital para ampliar suas vendas. Contrata influenciadores, utiliza jogos e recompensas para aumentar o engajamento e desenvolve uma comunicação mais descontraída para conquistar novos clientes.

A estratégia funciona. O alcance cresce, as interações aumentam e a marca conquista visibilidade. Mas surge uma questão que talvez não tenha sido considerada no planejamento: quem, de fato, está sendo atraído por essa comunicação?

Essa pergunta ganha relevância diante do ECA Digital, legislação que estabelece regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

Em outubro de 2026, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) publicou um Guia Orientativo esclarecendo quais produtos e serviços de tecnologia da informação podem estar sujeitos à legislação e quais responsabilidades devem ser observadas.

Entre os aspectos abordados, um merece especial atenção dos empreendedores: uma empresa pode desenvolver um serviço digital para adultos e, ainda assim, apresentar características que favoreçam sua utilização por crianças e adolescentes.

Quando uma estratégia comercial também exige atenção jurídica

Campanhas com influenciadores, conteúdos interativos, gamificação, sistemas de recompensas e mecanismos de engajamento fazem parte das estratégias de muitas empresas.

São recursos legítimos e frequentemente utilizados para aproximar marcas e consumidores. Entretanto, dependendo de como são empregados, também podem aumentar o interesse de um público que não estava originalmente previsto.

Isso não significa que utilizar essas ferramentas faça uma empresa se enquadrar automaticamente no ECA Digital.

A legislação considera critérios que precisam ser analisados em conjunto, como a atratividade e a probabilidade de utilização por crianças e adolescentes, a facilidade de acesso e os riscos significativos à sua privacidade, segurança ou desenvolvimento.

O alerta está justamente na necessidade de compreender que o público alcançado por um produto ou serviço pode ser diferente daquele que a empresa pretendia atingir.

E, quando esse cenário muda, a avaliação dos riscos e das responsabilidades também pode precisar ser revista.

O que isso tem a ver com pequenas e médias empresas?

Mais do que parece.

Pense em uma empresa que comercializa seus produtos por meio de um aplicativo próprio, uma plataforma de cursos que utiliza desafios e recompensas ou um negócio digital que decide ampliar sua divulgação com influenciadores populares entre adolescentes.

São situações que podem fazer parte da rotina de pequenas e médias empresas.

O tamanho da empresa, por si só, não determina se o ECA Digital será aplicável. É necessário considerar as características do serviço, seu funcionamento e os riscos envolvidos. A própria legislação admite a modulação de determinadas obrigações, levando em conta fatores como o porte do fornecedor e a natureza da atividade.

Portanto, não se trata de afirmar que toda PME que realiza campanhas digitais estará sujeita às mesmas exigências de uma grande plataforma.

Trata-se de reconhecer que o crescimento do negócio também precisa ser acompanhado por uma avaliação responsável dos seus impactos.

Marketing, tecnologia e gestão precisam conversar

Uma campanha pode ser excelente do ponto de vista comercial e, ao mesmo tempo, trazer novas questões relacionadas à privacidade, à segurança e à proteção de direitos.

Por isso, decisões sobre comunicação, funcionalidades e experiência do usuário não deveriam ser analisadas apenas sob a perspectiva das vendas ou do engajamento.

É importante que essas escolhas também considerem possíveis riscos, com a participação dos profissionais responsáveis pela gestão, tecnologia e conformidade legal, conforme a estrutura de cada empresa.

E isso não precisa começar com processos complexos.

O empreendedor pode dar os primeiros passos fazendo perguntas simples:

  • Quem utiliza ou pode utilizar meus serviços digitais?
  • Minha comunicação pode atrair crianças e adolescentes?
  • Existem riscos associados à forma como essas pessoas acessam e interagem com a plataforma?
  • As medidas de segurança e privacidade acompanham as mudanças do negócio?

Essas perguntas ajudam a identificar quando é necessário aprofundar a avaliação e buscar orientação especializada.

Crescer também é assumir responsabilidades

O novo guia da ANPD reforça uma compreensão importante: a proteção de crianças e adolescentes deve ser considerada desde a concepção dos serviços digitais e acompanhada durante seu funcionamento.

Isso exige olhar para além das políticas e dos termos de uso. As organizações precisam compreender seus riscos, adotar medidas proporcionais e, quando aplicável, demonstrar sua efetividade.

Para o empreendedor, a mensagem é clara: governança não deve ser vista apenas como uma preocupação das grandes corporações. Ela também faz parte da construção de negócios sustentáveis, confiáveis e preparados para crescer.

Afinal, uma boa estratégia empresarial não considera somente os resultados que pretende alcançar, mas também os impactos que pode produzir.

Antes de planejar a próxima campanha, talvez valha acrescentar uma pergunta ao briefing: estamos avaliando apenas quem queremos alcançar ou também quem podemos acabar alcançando?

Porque crescer é importante. Mas compreender as responsabilidades que acompanham esse crescimento é igualmente necessário.

Referência: Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Guia Orientativo — Fornecedores de produtos ou serviços de tecnologia da informação: escopo e obrigações gerais do ECA Digital. Outubro de 2026.

* Por Márcia Lima, contadora. (@mlima_digital).

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