Pode, mas é importante fazer uma ressalva: a ausência paterna, por si só, não determina que alguém desenvolverá um transtorno de ansiedade. O desenvolvimento humano é multifatorial. Aspectos genéticos, temperamento, ambiente familiar, rede de apoio e a qualidade dos vínculos afetivos exercem influência conjunta.
O que observamos na prática clínica é que, quando essa ausência é vivida como abandono, rejeição ou negligência emocional, ela pode contribuir para uma percepção mais insegura da vida e das relações. A criança cresce tentando compreender uma falta para a qual, muitas vezes, não encontra explicação. E, quando não encontra sentido para aquilo que vive, frequentemente cria interpretações sobre si mesma: “não fui importante”, “não fui suficiente”, “não mereci ser amado”.
Essas crenças podem acompanhar o indivíduo por muitos anos e favorecer insegurança, medo de rejeição, necessidade excessiva de aprovação e maior vulnerabilidade à ansiedade. Não porque a ausência seja uma sentença, mas porque ela pode influenciar a maneira como a pessoa passa a interpretar o mundo e a si mesma.
Quais impactos emocionais podem acompanhar os filhos até a vida adulta, principalmente quando eles se tornam pais ou mães?
A infância não desaparece quando nos tornamos adultos. Muitas experiências permanecem silenciosas até serem despertadas por novos papéis da vida. É muito comum que, ao se tornar pai ou mãe, a pessoa revisite, ainda que inconscientemente, a própria história. O nascimento de um filho desperta comparações inevitáveis: “Como meu pai viveu essa fase?”, “Por que ele não esteve presente?”, “Como posso oferecer ao meu filho aquilo que eu não recebi?”.
Esse reencontro com a própria história pode gerar ansiedade, medo de falhar, excesso de responsabilidade ou até um perfeccionismo parental, na tentativa de compensar aquilo que faltou. Em outros casos, pode surgir um receio intenso de repetir os mesmos padrões familiares.
Ao mesmo tempo, essa etapa também representa uma oportunidade extraordinária. É quando muitas pessoas decidem interromper ciclos e construir uma forma diferente de exercer a parentalidade. A história influencia, mas não condena.
Como ressignificar essa ausência?
Ressignificar não é apagar o passado nem justificar quem esteve ausente. Também não significa fingir que não doeu. Ressignificar é permitir que aquela experiência deixe de ser o centro da própria identidade.
Na Logoterapia, Viktor Frankl nos lembra que, embora não possamos mudar os fatos da nossa história, somos livres para escolher a atitude que adotaremos diante deles. Essa liberdade não elimina a dor, mas impede que ela tenha a palavra final.
Na clínica, costumo dizer que uma pessoa não é definida pelo que lhe faltou, mas pela forma como responde às faltas da vida. Quando ela compreende que o comportamento do pai fala mais sobre as limitações dele do que sobre o seu próprio valor, começa a reconstruir sua identidade sobre bases mais sólidas.
Esse processo não acontece da noite para o dia, mas é possível. Com apoio psicológico, elaboração emocional e construção de novos significados, a ausência deixa de ser uma prisão para se tornar apenas um capítulo da história. E talvez essa seja a maior conquista: perceber que o passado explica parte de quem somos, mas não precisa determinar quem escolheremos ser.

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